Devaneio nº 13

No início, a ciência se debruçou sobre o invisível. Os átomos, jamais vistos por olhos humanos, não podiam ser capturados pelas lentes ou pelas mãos. Eles eram, na verdade, visões construídas pela mente; imaginações embasadas no comportamento elétrico e magnético, em observações que nos trouxeram o modelo imaginado, o modelo planetário do átomo. Giravam ao redor de núcleos, como planetas em órbita de suas estrelas – uma analogia ousada, mas tão clara que se tornou quase natural.

E assim imaginamos também o desaparecimento dos dinossauros. Encontramos fragmentos fossilizados, ecos das criaturas titânicas que habitaram a Terra: gigantes voadores, corredores vorazes, herbívoros calmos e predadores ferozes. Tudo isso existiu há milhões de anos, mas depois desapareceu, misteriosamente. Ao explorar os vestígios e realizar análises complexas, cientistas concluíram que um meteoro colossal atingiu a Terra. O local do impacto, hoje, é o litoral do México, a cratera de Chicxulub.

Mas o que houve naquele momento fatídico? O meteoro se aproximou como uma estrela cadente monstruosa, crescendo a cada segundo, um farol de destruição. Antes mesmo do impacto, as águas fervilhavam, erupções dantescas saltavam como geisers da pele dos dinossauros. O calor intenso fazia ferver seus corpos, o ar em volta começava a arder e a fagulhar. Ao colidir, o impacto liberou uma energia inimaginável, equivalente a centenas de milhares de bombas atômicas. Um campo magnético pulsante queimava a atmosfera e evaporava tudo ao redor, reduzindo seres vivos a pó em meio a chamas invisíveis. Em questão de minutos, tsunamis e terremotos engoliam tudo. A onda de destruição varria o planeta; a vida cessava, e uma nova era da Terra se iniciava.

Esse foi o fim dos dinossauros. A Terra foi remodelada, pronta para abrigar outra criação. E aqui estamos nós.

E agora começa o Devaneio nº 13.

Olhando para o que nos tornamos, notamos que o ser humano também vive sob um paradoxo. No último século, nos tornamos a espécie mais brutal de todas: assassinamos mais de cem milhões de nossos semelhantes. Diariamente, assistimos a cenas de crueldade que chocam. Lembramos que, há dois mil anos, espancamos e crucificamos Jesus. E hoje, a violência, a intolerância, a indiferença e a inveja ainda estão vivas em nossa essência. Somos impulsionados, não apenas por instintos selvagens, mas, muitas vezes, por forças sombrias: a vaidade, a ira, a luxúria, a avareza, a gula, a preguiça e a inveja. Somos, muitas vezes, reféns de nossos próprios vícios.

É como Kant observou: seguimos uma ética do dever, não do coração. Na maioria das vezes, nossos atos de bondade não passam de obediência a um código social, não à nossa essência.

Sendo assim, proponho uma analogia: se entendemos que o fim dos dinossauros se deu por um cataclismo, será mesmo que o causador foi um meteoro? E se não fosse? Pensem, se puderem me acompanhar por um instante: e se aquele corpo celeste que atravessou o espaço e se chocou contra a Terra não fosse uma simples rocha, mas sim uma figura que conhecemos por outro nome? E se, naquele momento apocalíptico, a entidade que conhecemos como Lúcifer tivesse sido lançada à Terra?

Imagine a cena: Lúcifer, o anjo que ousou desafiar o próprio Deus, sendo arremessado das alturas, ardendo em chamas. Ao cair, arrastou consigo uma legião de anjos caídos, almas poderosas e perdidas, consumidas pelo desejo de poder. Ao tocar a Terra, eles irromperam com um poder destrutivo capaz de apagar a vida como conhecíamos, dando origem a uma nova era, na qual a humanidade surge, herdando traços dessas entidades caídas.

Esse pensamento pode parecer absurdo, mas e se essa hipótese explicasse a dualidade que nos constitui? A bondade e a maldade, o altruísmo e o egoísmo, o sacrifício e a traição – essas forças opostas convivem em nossa essência. Seríamos nós descendentes espirituais desses anjos caídos? Seríamos o resultado de uma fusão entre as criaturas que habitavam a Terra e a chegada de seres de uma natureza mais sombria, seres que caíram do céu em chamas e deixaram sua marca em nosso DNA espiritual?

Tal ideia nos faz questionar nossa natureza, olhar para nossos erros e entender que, por mais que lutemos, há algo em nós que carrega o peso do passado. Isso não quer dizer que somos incapazes de transcender, mas sim que nossa luta interna é real e profunda. O bem e o mal que nos cercam são, talvez, ecos daquela colisão primitiva, aquela chegada de uma legião de seres que ansiavam por poder.

Se isso for verdade, então é nossa responsabilidade encarar nosso passado e entender de onde viemos, para que possamos moldar um futuro diferente. Não precisamos ser definidos pela crueldade ou pela inveja. Ao reconhecer nossa dualidade, talvez possamos, enfim, nos unir por algo maior, buscando uma sociedade mais justa, menos presa aos impulsos que nos fragmentam.

Esse é o meu devaneio nº 13, e, com ele, espero plantar uma semente. Que entendamos que nossa natureza pode ser complexa, mas que nosso destino ainda é uma escolha. Que a paz e a compaixão sejam nossos guias. Paz e fiquem com Deus.

 

05 de novembro de 2024.

Lancellotti, JÚPITER 

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